quinta-feira, 14 de março de 2019

O TIJOLO E A SUA APLICAÇÃO AO LONGO DO TEMPO




ANTIGUIDADE DE UTILIZAÇÃO

Desde que o homem iniciou esta perturbante aventura que é a sua vida na Terra, o barro foi-lhe companheiro constante e dedicado; protegeu-o das intempéries, permitiu aos poderosos a ilusão de vencerem a sua fragilidade humana através de colossais edificações, deu aos humildes, habitados pela centelha do gênio, a possibilidade de se realizarem na Arte e de trazerem até nós a sua mensagem imorredoira. E ainda hoje, quando o historiadores nos ensinam o que fomos, pedem ao barro, quer nas placas escritas, quer nos monumentos e obras de arte, quer nos objetos de uso comum, que lhes dê o apoio e o fundamento para as suas hipóteses e conclusões. Já o homem neolítico, ao criar a família, a abriga em casas onde os vasos de barro lhes guardam os alimentos e lhes suavizam o olhar, e onde, e isto tem para nós particular importância, o tijolo aparece como elemento estrutural nos pavimentos; a mão do homem era a máquina de moldagem, o Sol o combustível; como quer que seja, a indústria de cerâmica de construção dava os primeiros passos. Mais perto de nós, há uns quatro mil anos, na Mesopotâmia, a escassez de pedra iria dar um grande impulso à construção de tijolos; os palácios de khorsabad e de Sargão testemunham a evolução havida, mostram tijolos cozidos com secção quadrada de cerca de 30 cm de lado e com 5 a 10 cm de espessura, revelam-nos tijolos com secção oval em pilares, apresentam-nos já tijolos vidrados. E, nesse tempo, o orgulho do homem leva-o a tentar desvendar o Universo, a subir cada vez mais, a imaginar a construção da torre de Babel... em tijolo cozido. No antigo Egito, a existência de pedra não obrigou ao uso generalizado do tijolo. Porém, a sua utilização teve lugar em canais, alguns monumentos apresentam tijolos e, durante a construção das celebradas pirâmides, os operários habitavam em casas construídas com tijolos de edifícios antigos; e a Bíblia nos diz que Jeová libertou o seu povo dos reis egípcios que lhes «amargavam a vida com dura servidão em barro e em tijolo». Deve-se a Roma um grande desenvolvimento da aplicação dos tijolos que se espalham por todo o seu Império tornando-se uma autêntica atividade industrial; os romanos levaram a toda a parte os seus conhecimentos na matéria, inclusivamente às ilhas Britânicas onde, após a ocupação romana, só no século XIII se voltará a fabricar um material que mais tarde tanto haveria de ser da sua predileção. Também os árabes utilizaram o tijolo e na sua expansão o levaram a outros povos de tal forma que ainda hoje o podemos contemplar extasiados em belos monumentos como, por exemplo, a Giralda de Sevilha. Continuou o homem a sua caminhada histórica e com o Renascimento, o tijolo quase não se vê; mas em muitos dos seus mais belos monumentos ele lá está embora escondido, como que envergonhado. Em Inglaterra, o grande incêndio de 1666 destruiu Londres, velha cidade de madeira; atentos à lição, os britânicos reconstruíram a cidade usando o tijolo. No século passado, a construção metálica e o betão destronam o tijolo que deixa de ter funções estruturais para ocupar a função subalterna de material de enchimento. Mas o tijolo reage e adapta-se, utilizando-se para proteger contra a ação do fogo vigas e pilares metálicos, e aparecendo em conjunto com vigas metálicas na construção de pavimentos. Desenvolvem-se então os tijolos furados, que já os romanos tinham usado, e eis que aparecem em edifícios tão respeitáveis como o Palácio da Justiça e a igreja da Madeleine, em Paris, e o Palácio de Buckingham, em Londres. Ainda mais, quando na América a construção metálica permitiu a edificação de arranha-céus, a necessidade de materiais leves é resolvida por recurso aos tijolos aligeirados. A necessidade força a imaginação dos industriais a procurar novas soluções, os arquitetos buscam e encontram novas formas e o tijolo continua a aparecer, umas vezes com beleza, outras desgracioso, aqui e ali, como na Inglaterra e na Holanda, caracterizando civilizações.



NECESSIDADES HUMANAS E TÉCNICAS A SATISFAZER

0 fato do tijolo permanecer tantos séculos como material de construção leva-nos a inquirir das razões de assim ter sucedido. É certo que com a pedras se passa algo de semelhante, mas a pedra, se assim se pode dizer, aparece já feita, é quase fatal a sua utilização, ao passo que o tijolo é uma criação do homem e, por isso, não se estranharia que tivesse utilização mais transitória, que fosse válido numa época e objecto de museu nas épocas seguintes. Acontece que ao longo dos séculos sempre o homem necessitou de um abrigo para si e para os seus; abrigo que o proteja contra as intempéries e seja também um local que, isolando-o do frio, do calor e do ruído, lhe permita trabalhar e descansar, lhe suavize o esforço material e lhe propicie ambiente para os seus voos espirituais. Além disso, é preciso que estas condições tenham razoável permanência, que resistam, que durem, que suportem acontecimentos normais, como as chuvas, ou acidentais, como o fogo; é preciso ainda que o preenchimento destas condições se possa fazer com certa beleza e personalidade, que sejam fáceis de alterar quando as necessidades ou as modas o impuserem; finalmente, é preciso que a sua satisfação seja econômica e rápida. Satisfará o tijolo a s necessidades enunciadas? Relativamente a algumas, a resposta é fácil e imediata. Assim, as pequenas dimensões do tijolo facilitam criações diferenciadas e soluções arquitetônicas agradáveis, ao mesmo tempo que o tornam particularmente apto para a realização de alterações.

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